Eis uma solução barata para melhorar as calçadas do Brasil em 2018

Por Leão Serva - Folha de S. Paulo.

Quem nunca tropeçou em buracos ou irregularidades em nossas calçadas atire a primeira pedra. Não é possível esconder o fato de que os passeios públicos no Brasil são um horror, uma prova de descaso dos governos e discriminação social com os mais pobres, que formam uma maioria ainda maior quando se trata de pedestres. E além deles, também idosos, pessoas com mobilidade reduzida e todos que decidiram não usar os carros.

No começo de 2017, o prefeito de São Paulo, João Doria Jr., nomeou um secretário cadeirante, Cid Torquato, e até andou de cadeira de rodas para constatar problemas. Mas ao final do primeiro ano de governo, o que mudou? Nada. 

No entanto, assim que sobrou um dinheiro de multas no orçamento, o que fez a administração que prometeu ser diferente de todas as anteriores? Lançou o que chama de "maior programa de asfaltamento" da história da cidade. Pode até ser maior, mas todos os prefeitos anteriores tiveram programas iguais desde que Henry Ford implantou sua primeira fábrica de carros. É o maior do mesmo... 

O que até hoje não se viu foi um prefeito acelerar a recuperação de calçadas. Entra administração e sai administração e os programas anunciados para o espaço entre os imóveis e o asfalto são sempre nulos, servem apenas para calar os críticos, fingir preocupação, iludir a opinião pública. 

Se hoje as calçadas já causam quase a metade dos atendimentos ortopédicos em hospitais paulistanos, a coisa tende a piorar com o envelhecimento da população. Não é só a Previdência Social que precisa ser reformada por esse desequilíbrio. Os mais velhos, como destacou o cartunista Ziraldo em sua recente entrevista à Folha, levantam menos os pés ao andar, tropeçam mais facilmente nas irregularidades do piso. E nossas calçadas são verdadeiras arapucas para eles. Não é por outra razão que uma das ações prioritárias do programa "Cidade Amiga do Idoso, promovido pela OMS, é exatamente a garantia de calçadas confortáveis para o andar da terceira idade. 

Em 2017, estive em três cidades elogiadas pela qualidade de vida, as três muito acima de São Paulo em qualquer ranking de lugar ideal para se viver: Sydney e Melbourne, na Austrália, e Londres, na Inglaterra. E as três têm em comum a qualidade de suas calçadas: bem mantidas, com piso regular, sem buracos e riscos de tropeços. Certamente a qualidade de vida tem tudo a ver com a dos passeios públicos. 

Uma consequência sutil dessa diferença é o fato de que o pedestre ou corredor, em São Paulo, tem que estar em alerta permanente, olhando para o chão; nas três cidades, o andarilho ou maratonista pode prestar atenção na paisagem, admirar prédios e pessoas. Uma diferença pequena que muda a relação com a cidade. 

Nos passeios daquelas metrópoles, há algo que deveria inspirar nossos prefeitos, por seu baixo custo: as calçadas de inúmeras vias são cobertas de asfalto. As mesmas equipes que pavimentam as ruas podem administrar a matéria-prima sobre o espaço destinado aos pedestres. Há ganho de escala na mão de obra e no material, facilidade de logística, coincidência nos calendários de obras em cada via. E é muito mais barato passar e aplainar o asfalto do que todo o trabalho, especializado, exigido pelos elaborados pisos utilizados em certas áreas paulistanas: mosaicos portugueses, placas de concreto, ladrilho hidráulico etc. 

Alguém dirá, com razão, que áreas turísticas precisam ter pisos bonitos; que áreas onde já há boas condições, como a avenida Paulista, devem ser preservadas como estão. Pode ser: não há porque piorar o que vai bem. Mas não será nada mal se todas as calçadas defeituosas forem retificadas com cobertura asfáltica e passarmos rapidamente a ter passeios como de cidades melhores do que as nossas em qualidade de vida. 

Fica a dica. Quem sabe possamos superar esse desafio eterno em 2018 e, em 2019, passar a outras questões.

Artigo publicado na Folha de S. Paulo