Matagal cresce e se espalha em SP com desfalque em equipes de Doria

GIBA BERGAMIM JR. - FOLHA DE S. PAULO

Mães com crianças de colo caminham à beira do matagal que cerca a escola infantil Jardim São Paulo, na região de Guaianases (extremo leste). O mato já avança até sobre o playground da unidade de educação municipal.

Do outro lado da cidade, o terreno público está tomado pelo mato e por plantas que chegam a quase dois metros, alcançando a placa que indica o nome da rua: Adriano Theodósio Serra, no Butantã.

Os dois exemplos resumem falhas do serviço de zeladoria da cidade, problema que começou na gestão passada, de Fernando Haddad (PT), e se mantém neste primeiro semestre do mandato do prefeito João Doria (PSDB), que culpa o antecessor e promete resolver esses gargalos.

Em áreas afastadas do centro expandido, moradores relatam a ausência do serviço, como a Folha constatou ao percorrer as zonas sul, leste, norte e oeste nesta semana.

O problema ocorre cinco meses após Doria anunciar um programa de zeladoria que se tornou o mote de sua gestão, o Cidade Linda.

As operações ocorridas nos finais de semana com a presença do tucano são divulgadas com alarde nas redes sociais pela equipe do prefeito.

Nesta semana, funcionários de duas prefeituras regionais –Guaianases e Cidade Ademar (zona sul)– disseram à reportagem que houve uma redução de equipe neste ano por causa de uma troca da empresa que presta o serviço de capinação.

Dados obtidos pela Folha por meio da Lei de Acesso à Informação confirmam as reduções de servidores em pelo menos 11 das 33 prefeituras regionais. Em Cidade Ademar, o mato cerca inclusive carcaças de carros apreendidos no pátio da regional.

Perto dali, na avenida Cupecê, só se chega à ciclovia e aos brinquedos do parque do Nabuco após passar pelo mato. A única área com sinais de capinação é parte da moradia de Claudiney Izidoro dos Santos, 45, que vive num barraco ali com dois amigos.

"Enquanto deixam a gente ficar aqui, eu cuido. Limpamos o entorno do barraco, tiramos o excesso de mato", disse Santos, que colocou vasos de plantas e enfeites ali.

"Desde o ano passado não se vê ninguém cortando esse mato. Como vamos usar essa praça desse jeito?", disse a aposentada Walkíria Espírito Santo, 71, moradora de uma rua com bancos e playground rodeados pelo matagal.

BUTANTÃ

No mês passado, moradores da Vila Gomes receberam a visita do prefeito regional do Butantã, Paulo Victor Sapienza. Ele criticou a gestão passada por deixar a região abandonada e disse em vídeo publicado nas redes sociais que uma calçada ali mais parecia passagem para cavalos.

Passados mais de 20 dias da visita, no entanto, o mato persistia até esta sexta (12).

"Quando passo aqui à noite acho perigoso. A gente não enxerga direito a rua", disse a operadora de caixa Lilian Cristina Silva, 50, que costuma acessar a rua Adriano Theodósio Serra.

No extremo leste, o medo de que criminosos se escondam no mato e de animais peçonhentos que costumam se proliferar em áreas sem manutenção obriga mães a dobrarem o cuidado no entorno da CEI (Centro de Educação Infantil) Jardim São Paulo.

"Nem lembro a última vez que vieram aqui. É esse matagal sempre", disse a dona de casa Tami Cristina, 28, que busca o filho de quatro anos ali diariamente, sempre com seu bebê de dois meses.

HERANÇA

A gestão do prefeito João Doria (PSDB) culpa a do antecessor, Fernando Haddad (PT), pelos problemas de zeladoria e diz que assumiu o mandato com número considerado insuficiente de equipes para as necessidades da cidade. Também promete contratar mais trabalhadores para manutenção da cidade.

"Exatamente por isso está fazendo todos os trâmites necessários para a contratação. Consultas públicas para atas de registro de preços de equipes de conservação de galerias, conservação de logradouro e desfazimento, limpeza de córregos, além das equipes de áreas verdes já foram publicadas no 'Diário Oficial da Cidade'", diz a prefeitura, em nota à reportagem.

Conforme o texto, uma ata de registro de preços para contratação de equipes será publicada na semana que vem. De acordo com a Secretaria de Prefeituras Regionais, no primeiro trimestre havia 202 equipes de limpeza de áreas ajardinadas.

"Mesmo com um número inferior de equipes em relação ao primeiro trimestre de 2016 [283], houve um aumento de produtividade na ordem de 13,69%. Ou seja, produzimos mais com menos equipes de trabalho", afirma.

Segundo a pasta, no primeiro trimestre de 2016, foram realizadas em média 85.361 m² de limpeza por equipe. Já no primeiro trimestre de 2017 a média foi de 97.045 m².

"Vale ressaltar que no quarto trimestre do ano passado eram apenas 185 equipes de limpeza de áreas ajardinadas, portanto inferior do que o primeiro trimestre dessa nova gestão", diz a pasta.

A secretaria afirma que assumiu a gestão com uma "demanda represada" de 589.026 solicitações pelo serviço 156 que não haviam sido atendidas. Desse total, a maioria (457.864) está relacionada a ações de zeladoria.

"Além disso, o governo herdou, junto com essas demandas, buracos orçamentários de R$ 7,5 bilhões que inviabilizam, dentre outros serviços, o atendimento aos pedidos do 156 na velocidade adequada", afirma.

A pasta diz apostar em parcerias com empresas para conservação de praças, além dos programas Cidade Linda e Mutirão de Calçadas.

Por meio de nota, a gestão Haddad diz que deixou R$ 5,5 bilhões em caixa para a nova gestão arcar com despesas referentes a contratos e serviços. "Respeitamos as prioridades da nova gestão, mas não respondemos por elas", diz o texto da gestão do PT.

Matéria publicada na Folha de S. Paulo.