Redução de danos e abstinência devem integrar programa anticrack de Doria

ARTUR RODRIGUES - FOLHA DE S. PAULO

Em uma reviravolta na política antidrogas de João Doria (PSDB), o coordenador do programa municipal anticrack, o psiquiatra Arthur Guerra, defendeu na manhã desta quinta-feira (30) um modelo que misture abstinência e redução de danos. Ele também afirmou que só serão feitas internações voluntárias.

Na redução de danos, o dependente químico faz uso controlado da droga com a diminuição gradativa do consumo.

Inicialmente, o programa Redenção, criado por Doria, tinha um viés mais duro –pregava a abstinência, era favorável a apreender viciados nas ruas contra vontade e tinha como principal foco a internação. Agora, a atual gestão afirmou que deve incorporar em seu programa parte do programa Braços Abertos, do ex-prefeito Fernando Haddad (PT), que foi bastante criticado por Doria

O tucano disse várias vezes que acabaria com o programa petista –que oferecia moradia e emprego a usuários da droga que aceitassem o tratamento cuja base era a diminuição do consumo, e não a abstinência.

Durante reunião na Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal, Guerra afirmou discordar da defesa de apenas um modelo de tratamento dos usuários de drogas e da polarização que envolve o tema.
"É um erro na visão deste programa oferecer só a visão que o profissional acha que o paciente deve seguir. Devemos ouvir os pacientes para saber o que eles querem", disse.

Segundo ele, os pacientes poderão escolher tanto entre redução de danos quanto a internação. "Vários pacientes não querem ficar em abstinência", disse. "Há pacientes que estão na redução de danos e querem seguir em outro modelo, da abstinência, é o paciente que escolhe".

Ele afirmou que poderá aumentar o número de vagas em hospitais -o programa prevê 500 vagas. "Só fazemos internações de forma voluntária", disse Guerra.

Em maio, a Justiça vetou pedido de autorização do prefeito para recolher usuários de drogas à força na cidade, uma dos percalços enfrentados por Doria naquela região. 

O evento lotou uma sala da Câmara com ativistas e pessoas ligadas a entidades voltadas a políticas relacionadas a álcool e drogas. Moradores de rua e usuários de drogas também participaram do evento e fizeram fortes críticas à atuação do poder público na área, citando principalmente a violência da polícia e a falta de diálogo com os usuários de drogas.

Duas ex-secretárias de Doria, as vereadoras Soninha (PPS) e Patrícia Bezerra (PSDB), críticas à política da atual gestão, também participaram do evento, além do vereador Eduardo Suplicy (PT).

Patrícia Bezerra, ex-secretária de Direitos Humanos, elogiou a mudança no rumo do programa promovida por Guerra. "Não sei se [atual gestão] entende como um erro [a primeira abordagem do programa Recomeço], mas fez uma reflexão. Se debruçou sobre o que refletiu e está repensando a política municipal", disse.

Questionado se manteria políticas de Haddad, Guerra afirmou que segue as diretrizes de uma nova ação, "respeitando os pontos positivos do Braços Abertos". Entre as medidas criadas pelo ex-prefeito, ele afirmou que a prefeitura deve manter os hotéis para os quais são encaminhados os moradores de rua.

Matéria publicada na Folha de S. Paulo