Vizinhos temem plano de Doria e propõem assumir parque Ibirapuera

RAUL JUSTE LORES - FOLHA DE S. PAULO

Uma organização formada principalmente por empresários vizinhos ao Ibirapuera se mobilizou por uma terceira via na administração do parque. Eles não querem nem a burocracia lenta da prefeitura nem uma concessão a uma só empresa, como proposta pelo prefeito João Doria (PSDB).

Formada por um grupo de amigos do parque, a organização reúne do publicitário e colunista da Folha Nizan Guanaes ao empresário João Paulo Diniz, além de diretores de bancos como Santander, BMG e Alfa.

A Parque Ibirapuera Conservação (PIC) já se reuniu com os secretários Wilson Poit (Desestatização) e Gilberto Natalini (Verde) para defender que a administração do parque seja feita por uma organização sem fins lucrativos.

Atualmente, o Ibirapuera consome, sozinho, quase um terço dos R$ 70 milhões anuais que a prefeitura utiliza para manter 107 parques da cidade. Para os membros do PIC, se a sociedade civil se responsabilizar pelo espaço, em parceria com a prefeitura, haverá mais recursos para parques mais carentes.

"A experiência internacional mostra que os parques urbanos bem geridos por privados contam com modelo onde a sociedade civil atua diretamente na gestão, por meio de associações, que protegem o interesse público com agilidade privada", afirma o presidente da PIC, o engenheiro civil Thobias Furtado, 37.

Segundo ele, é fundamental que as empresas participem do processo, como parceiras e apoiadoras. Mas ele cobra mais estudos antes de entregar parques para concessionárias privadas.

A PIC surgiu a partir de um movimento iniciado em 2010 por membros do conselho de gestão do parque. Em 2015, obtiveram do Ministério da Justiça o título de organização da sociedade civil de interesse público, o que facilita as parcerias com órgãos públicos e as doações de grandes empresas.

Mil voluntários cadastrados já participaram de 12 mutirões de limpeza e de passeios guiados pelo parque —o último grande aconteceu no aniversário da cidade, em 25 de janeiro. O grupo reformou e entregou o Bosque da Leitura, em outubro de 2015, com doações de incorporadoras, escritórios de arquitetura e engenharia, e empresas de materiais de construção.

Entretanto as propostas para recuperar o lago, o parque dos cachorros, o playground e a pista da cerca, apresentadas entre 2013 e 2015, nunca foram adiante.

"A altíssima rotatividade de políticos e gestores [na Secretaria do Verde] na gestão passada impossibilitou qualquer evolução consistente pela sociedade civil", diz o presidente da fundação.

A gestão Haddad teve quatro secretários e seis diretores de parques em apenas quatro anos. No ano passado, diversos parques ficaram sem varrição e manutenção a partir de agosto, depois do cancelamento de contratos.

Na última sexta (10), Doria conversou com representantes de mais de 60 associações de bairros. Ele citou a experiência do nova-iorquino Central Park, mas não mencionou o modelo bastante diferente das concessões. Na quinta (9), o prefeito falou que pretende oferecer para concessões os 107 parques.

Ainda não se sabe que serviços serão permitidos aos concessionários. Fala-se de aluguel de espaços para eventos, restaurantes, lojas e quiosques e, principalmente, cobrança de estacionamento.

"Tanto no Central Park como em associações que cuidam de praias do litoral brasileiro vemos isso. Um modelo de gestão para espaços públicos que reúne os usuários interessados, com gestão transparente e profissional, sem visar lucro, com a participação das empresas. É modelo testado", diz o advogado Renato Ximenes, sócio do escritório de advocacia Mattos Filho, conselheiro do PIC.

Matéria publicada na Folha de S. Paulo.