Moradores usam água que nasce em bicas para lavar carro e fazer comida

Por Ana Krepp

Dois carros são lavados no meio de uma rua do bairro da Pedreira, zona sul de São Paulo. Não é um lava-rápido, tampouco o quintal de casa.

Diego Francisco, 22, e José Milton da Silva, 62, vão e voltam com baldes d'água que retiram de uma bica que sai de uma calçada e cai numa caixa construída especialmente para reter o volume.

São dois dos moradores da capital que utilizam diariamente água gratuita que saem de bicas nos quatro cantos da cidade para os mais variados fins: beber, lavar carros, louça, roupa, quintal e até tomar banho.

O primeiro, mora no bairro há 18 anos. O segundo, há mais de 20. Desde que chegaram por lá, a bica jorra água incessantemente, dia e noite.

"De fim de semana tem fila pra lavar o carro", diz Francisco, que no meio da limpeza, se refresca bebendo e lavando o rosto. "É mais seguro beber aqui do que na torneira de casa", afirma.

Hélio Koga, geólogo do DAEE (Departamento de Água e Energia Elétrica), no entanto, não recomenda que se beba a água que sai de bicas na cidade sem que a potabilidade seja comprovada.

"Mesmo que seja límpida e inodora, só uma análise pode garantir", afirma.

As periferias das regiões norte, sul, leste e oeste da capital têm bicas. Só na zona sul a reportagem encontrou cinco delas. "No centro não há bicas porque o solo é impermeável", explica Koga.

A água que jorrava na frente do bar onde José Cordeiro é gerente, em Artur Alvim, foi canalizada pelos moradores do bairro e transferida para a esquina de baixo, onde todos podem encher seu galões.

"Quando falta água, faz uma fila imensa, que atrapalhava quando era aqui na frente", diz Cordeiro.

Problema parecido enfrenta Mirian Souza, que tem uma bica no quintal de casa. "Nem fecho mais o portão, tinha que ficar abrindo toda hora pro povo que pega água até pra beber."

Ela diz já ter alertado os vizinhos a ferverem a água antes de beber. "Mas não adianta, eles saem já bebendo."

Mirian já tentou canalizar a água para dentro de casa, mas a pressão era pouca. Hoje em dia, até usa a água que brota na própria casa, mas só para lavar o quintal e em épocas de racionamento.

Não havia uma só bica pela qual a reportagem tenha passado que não estivesse sendo utilizada.

Na última delas, na Vila Nova Cachoeirinha, um homem tomava banho de canequinha, com xampu e tudo.

"É bom pra me limpar no meio do serviço, com esse calorão, já trago até toalha."

Matéria originalmente publicada no jornal Folha de S. Paulo

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