Orçamento de São Paulo 2026: muito dinheiro, pouca transformação territorial

O orçamento da cidade de São Paulo para 2026 está estimado em R$ 137,4 bilhões, um crescimento de 9,35% em relação ao ano anterior. O valor impressiona. Mas, quando olhamos para onde esse dinheiro vai, o cenário é menos animador.

Na prática, o orçamento municipal segue funcionando muito mais como um instrumento de manutenção da cidade do que de redução das desigualdades urbanas.

Orçamento previsto por secretaria – LOA 2026

Secretaria MunicipalOrçamento 2026 (R$)
Educação≈ 30,0 bilhões
Saúde24,07 bilhões
Mobilidade e Transportes≈ 11,0 bilhões
Subprefeituras4,59 bilhões
Assistência e Desenvolvimento Social≈ 3,6 bilhões
Habitação≈ 2,1 bilhões
Infraestrutura Urbana e Obras≈ 2,0 bilhões
Verde e Meio Ambiente≈ 1,1 bilhão
Cultura≈ 1,0 bilhão
Desenvolvimento Econômico e Trabalho386,6 milhões
Segurança Urbana≈ 760 milhões
Fazenda602,2 milhões
Direitos Humanos e Cidadania≈ 410 milhões
Urbanismo e Licenciamento≈ 350 milhões
Esportes e Lazer≈ 290 milhões
Planejamento e Eficiência31,2 milhões
Relações Internacionais34,8 milhões
Governo Municipal65,9 milhões
Fonte: Dados da LOA (Lei Orçamentária Anual) da Prefeitura de São Paulo

Um orçamento concentrado e pouco redistributivo

Assim como em anos anteriores, o orçamento de 2026 é fortemente concentrado em políticas obrigatórias e centralizadas. Educação e Saúde, juntas, absorvem cerca de 39% de todo o orçamento municipal, além dos recursos destinados à mobilidade urbana.

Essas áreas são fundamentais, mas esse desenho deixa pouca margem para políticas territoriais capazes de enfrentar desigualdades históricas entre centro e periferia.

Enquanto isso, áreas estratégicas para o futuro da cidade seguem subdimensionadas:

  • Meio Ambiente, Cultura e Direitos Humanos, somadas, não chegam a 3% do orçamento
  • Habitação, mesmo diante da crise habitacional, recebe cerca de R$ 2,1 bilhões
  • Planejamento e Eficiência têm um orçamento residual, de apenas R$ 31,2 milhões

O resultado é uma cidade que reage aos problemas, mas planeja pouco.

Subprefeituras: pouco recurso para quem executa no território

As Subprefeituras, responsáveis pela execução direta das políticas urbanas nos bairros, recebem apenas 3,3% do orçamento municipal, o equivalente a R$ 4,59 bilhões.

Isso significa cerca de R$ 401 por habitante ao ano, ou aproximadamente R$ 1,10 por dia para cuidar de zeladoria, manutenção urbana, pequenas obras, áreas verdes e serviços locais. Para uma cidade marcada por desigualdades profundas, esse valor é claramente insuficiente.

Olhando para o orçamento das subprefeituras, por região, temos o seguinte: 

Zona Norte

SubprefeituraValor (R$)
Jaçanã/TremembéR$ 55,67 mi
Santana/TucuruviR$ 70,80 mi
Vila Maria/Vila GuilhermeR$ 52,59 mi
Perus/AnhangueraR$ 61,64 mi
Pirituba/JaraguáR$ 62,45 mi
Freguesia/BrasilândiaR$ 65,18 mi
Casa Verde/Limão/CachoeirinhaR$ 56,34 mi
Fonte: Câmara Municipal de São Paulo

Zona Leste

SubprefeituraValor (R$)
Vila PrudenteR$ 53,60 mi
MoocaR$ 92,39 mi
SapopembaR$ 46,90 mi
PenhaR$ 68,56 mi
Ermelino MatarazzoR$ 56,20 mi
Aricanduva/Formosa/CarrãoR$ 64,02 mi
São Miguel PaulistaR$ 73,70 mi
Itaim PaulistaR$ 63,61 mi
GuaianasesR$ 72,56 mi
ItaqueraR$ 95,88 mi
Cidade TiradentesR$ 53,12 mi
São MateusR$ 84,96 mi
Fonte: Câmara Municipal de São Paulo

Zona Oeste

SubprefeituraValor Estimado no PL (R$)
ButantãR$ 62,10 mi
LapaR$ 65,03 mi
PinheirosR$ 68,52 mi
Fonte: Câmara Municipal de São Paulo

Zona Sul

SubprefeituraValor Estimado no PL (R$)
Campo LimpoR$ 61,46 mi
Capela do SocorroR$ 51,46 mi
Cidade AdemarR$ 61,23 mi
IpirangaR$ 75,20 mi
JabaquaraR$ 58,86 mi
M’Boi MirimR$ 64,30 mi
ParelheirosR$ 71,15 mi
Santo AmaroR$ 66,86 mi
Vila MarianaR$ 67,61 mi
Fonte: Câmara Municipal de São Paulo

Centro

R$ 190,92 milhões
Fonte: Câmara Municipal de São Paulo

Desigualdade dentro da própria cidade

A distribuição dos recursos entre as subprefeituras não segue critérios transparentes de população, área, vulnerabilidade social ou déficit de infraestrutura. Há variações significativas entre regiões e territórios com realidades muito distintas que acabam recebendo valores semelhantes.

Um exemplo emblemático é a Subprefeitura da Sé, que, apesar de ter uma população residente menor, recebe um orçamento relevante por concentrar equipamentos públicos estratégicos, grande circulação diária e demandas intensas de zeladoria. O problema não é a Sé receber mais é a periferia continuar recebendo pouco.

Execução desigual agrava o problema

Levantamento da Agência Mural de Jornalismo, ao analisar o orçamento de 2025, mostrou outro ponto crítico: as subprefeituras localizadas em áreas mais vulneráveis foram justamente as que menos conseguiram executar o orçamento previsto.

Fonte: Levantamento feito pela Agência Mural de Jornalismo das Periferias

Ou seja, além de receberem menos recursos, esses territórios ainda enfrentam dificuldades adicionais para transformar orçamento em política pública efetiva.

O que esse orçamento revela?

O orçamento de São Paulo em 2026 deixa alguns recados claros:

  • A cidade prioriza serviços universais centralizados
  • Investe pouco em políticas redistributivas territoriais
  • Mantém baixo poder orçamentário nas pontas
  • Investe 15 vezes mais por habitante em Saúde do que em Meio Ambiente
  • Planeja pouco, o que ajuda a explicar decisões pouco orientadas por evidências

Mais dinheiro não significa mais justiça urbana

São Paulo tem orçamento. O que falta é coragem política para redistribuí-lo de forma mais justa, olhando para os territórios que historicamente ficaram à margem do desenvolvimento urbano.

Sem fortalecer as subprefeituras, políticas ambientais, habitação e planejamento, a cidade seguirá grande e desigual. E orçamento, no fim das contas, é sempre uma escolha sobre que cidade queremos construir.

Ouça o Programa Nossa Cidade da rádio Eldorado FM (107.3) com a participação de Igor Pantoja, coordenador de relações institucionais do Instituto Cidades Sustentáveis (veiculado em 15 de janeiro de 2026).

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