Tô me guardando pra quando outro carnaval chegar

Por Jorge Abrahão, coordenador-geral do Instituto Cidades Sustentáveis | Foto: Paulo Mumia / Riotur

Temos carnaval! E estamos diante de uma oportunidade de criar vínculos com a cidade que vão além do medo, do estresse e do cansaço.

Neste período do ano muitos se transformam. E ocupam a cidade e as ruas como não ocorre durante todo ano. Para cantar, dançar, se encontrar com outros e, com alguma sorte, consigo mesmo, já que durante o ano estamos muito ocupados demais para achar uma brecha para nos encontrarmos conosco.

Não existe nenhum outro evento no país em que as pessoas se apropriem do espaço público como no carnaval. E saímos descontraídos, observando as ruas, as construções e as árvores da cidade. Quem dera este espírito de relaxamento e pertencimento se espalhasse no ano: a cidade seria outra.

Em São Paulo, a festa foi ganhando espaço na última década. A partir da organização popular de blocos foi criada uma política pública em 2013, pelo então secretário de cultura Nabil Bonduki, que incentivava a estruturação dos blocos de rua. E com os anos a festa foi crescendo até se tornar, nos dias de hoje, uma das maiores do país – a ponto da cidade se transformar totalmente neste período do ano. Da São Paulo ranzinza, workaholic, apressada e com medo da violência, para a cidade que canta, dança e sai para as ruas é questão de um feriado de alguns dias emoldurado na ideia do relaxamento ocioso. 

Há algum tempo, porém, muitas cidades têm se transformado em um balcão de negócios de diferentes segmentos, como os da construção, do transporte, dos resíduos, dos parques, entre outros. O carnaval é o mais recente produto da prateleira pública.

E, como não poderia deixar de ser, com o crescimento da festa na maior e mais rica cidade do país, cresceram também os interesses econômicos de empresas relacionadas à mobilização de milhões de pessoas. A Ambev, por exemplo, está investindo RS 30 milhões no carnaval de São Paulo. A prefeitura destinou somente RS 2,5 milhões para o apoio aos mais de 620 blocos de rua, o que dá RS 4 mil, em média, para cada um. A título de comparação, no réveillon de 2025 a prefeitura gastou RS 5,8 milhões para pagar o cachê de seis artistas que se apresentaram na festa. É enorme o desequilíbrio e a desproporção.

A questão econômica gera impacto em muitas dimensões. Desde a brincadeira que começa nos criativos nomes dos blocos – Arrianu Suassuna, Amoribunda, Imprensa que eu gamo (criado por jornalistas), Minhoqueens, Meu bem volto já, Vá tomá na Cupecê, entre tantos outros que funcionam como bilhete de entrada. No carnaval deste ano, no entanto, os maiores blocos têm nome de empresas e são puxados por celebridades: o Bloco da Skol, com o DJ Calvin Harris, e o Bloco da 99, com Ivete Sangalo, onde a exposição de marca e as taxas de retorno de investimento são as questões centrais. E as multidões atraídas estão sujeitas, sem saber, a riscos de tumultos por falta de estrutura, como o que ocorreu neste domingo na Consolação. Até a negociação do espaço público subordinado aos interesses das empresas.

Tudo é uma questão de modelo. Não foi este modelo de megablocos financiados por grandes empresas e artistas famosos o responsável pelo crescimento do carnaval em São Paulo, mas sim o da atração pela dança descontraída de blocos em que você não tem uma celebridade central, mas um encontro com o objetivo de cantar, dançar e se divertir.

Cabe à prefeitura evitar que este belo momento se transforme em risco para os carnavalescos. Estamos diante de uma oportunidade em que a população encontra-se com a cidade, respira seu ar, enxerga suas belezas e cicatrizes, escuta sua música e se arrepia com os encontros. Aproveitar o espírito carnavalesco para entender as necessidades dos blocos, escutá-los, compartilhar decisões visando garantir um clima saudável que convide cada vez mais pessoas a se integrarem à festa e à cidade deve ser o objetivo central dos agentes públicos envolvidos.

Artigo publicado originalmente na Folha de S.Paulo em 12/02/2026.

Compartilhe este artigo