Por Jorge Abrahão, coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis e Rede Nossa São Paulo
Milhões de pessoas vivendo em um mesmo espaço é algo relativamente recente na história da humanidade. Londres alcança seu primeiro milhão de habitantes em 1810, e um grupo maior de cidades só alcançará essa marca a partir de 1950.
Quando reunimos tanta gente em um mesmo território, surge uma grande quantidade de desafios a serem superados, como as desigualdades sociais, a pobreza, a saúde, a educação, a mobilidade e as enchentes, entre outros.
A análise de indicadores no decorrer do tempo confirma que não estamos superando os problemas mais sensíveis das cidades. O Mapa da Desigualdade de São Paulo, realizado há mais de dez anos pela Rede Nossa São Paulo, revela por exemplo que a diferença da idade média ao morrer entre distritos ricos e pobres da capital permanece em torno de 20 anos nas últimas décadas, o que significa que as pessoas que moram nos Jardins vivem, na média, 20 anos a mais do que as que vivem em Cidade Tiradentes.
Prova de que as ações em temas estruturantes como qualidade da saúde, educação, homicídio de jovens, mortalidade infantil e habitação, permanecem tímidas frente aos desafios. Na mobilidade urbana as pessoas permanecem desperdiçando, na média, há uma década, duas horas e meia por dia para se deslocarem na capital paulista. Um problema diário para milhões de pessoas.
Um dos aprendizados é que é difícil encaminhar soluções de maneira tão centralizada, a partir de um centro de governança que não estabeleça contato orgânico com as diferentes regiões da cidade. A descentralização política e administrativa passa a ser um caminho para o enfrentamento dos problemas reais das pessoas em seus territórios. A participação e a escuta da população é chave para uma mudança qualitativa.
São Paulo avançou nesta direção e, em 2002, dividiu o território em 32 subprefeituras. Mas, com o passar do tempo, a boa ideia foi sequestrada pela pequena política e passou a ser utilizada pelo(a) prefeito(a) como moeda de troca para o apoio de vereadores na Câmara, que passaram a indicar os subprefeitos. Além disso, são realizadas eleições para o Conselho Participativo Municipal (CPM), mas o problema é a subutilização, reduzindo suas atribuições à administração de parcos recursos orçamentários. A distribuição de R$ 10 milhões por CPM, frente aos R$ 137 bilhões do orçamento para 2026, ou 0,23% para as 32 subprefeituras, dá a medida da relevância desses conselhos para a prefeitura.
Olhar como outras grandes cidades funcionam com a descentralização da gestão pode ser inspirador. No último domingo, Paris realizou eleições municipais em seus 20 arrondissement (o equivalente às nossas subprefeituras). Na capital francesa, as pessoas votam em uma lista de representantes dos bairros onde moram. São os chamados conselheiros distritais, que cuidam de políticas e decisões locais e, ainda, elegem os conselheiros da cidade – que, por sua vez, têm a responsabilidade de votar na pessoa que
será o prefeito ou a prefeita da cidade.
Em Buenos Aires e na Cidade do México, há diferenças e semelhanças ao sistema francês. Em ambas, a população também elege representantes para os seus equivalentes às subprefeituras (as comunas, no caso da capital argentina, e as alcadías, na capital mexicana). A diferença é que a eleição é direta, ou seja, os eleitores votam em nomes específicos, e não em listas de representantes, como ocorre em Paris.
É importante ressaltar que, em todas elas, os distritos têm mais poder e influência para tomar as decisões em nível local do que em São Paulo. A participação cidadã também é fortalecida nesse processo. Foi a forma que encontraram para atender as necessidades e prioridades de cada distrito, de cada localidade. O curioso é que as três cidades são menores em extensão territorial e têm menos habitantes do que a capital paulista – o que torna ainda mais injustificável o caminho que adotamos por aqui.
Quando sete em cada dez moradores de São Paulo dizem que, se pudessem, deixariam a cidade, fica evidente o desequilíbrio entre os benefícios oferecidos e os problemas enfrentados pela população. A política, em que pese nossas frustrações, segue sendo a melhor alternativa para promover mudanças em escala na cidade. O problema é que ela está cada vez mais fechada em si, dependente de lideranças isoladas, pouco ambiciosas do ponto de vista coletivo e preocupadas, sobretudo, em manter-se no poder.
Nas grandes cidades, uma maneira de preservar a democracia é aprimorá-la, criando alternativas para a participação qualificada da população. Neste sentido, a efetiva descentralização política pode contribuir para melhorar a vida das pessoas e a eleição direta para subprefeituras em São Paulo, a exemplo do que ocorre em outras grandes cidades, pode ser um caminho para que a qualidade de vida mude para melhor nos próximos 20 anos, diferentemente do que aconteceu nos últimos 20.
Artigo originalmente publicado na Folha de S. Paulo em 26 de março de 2026.